Eduardo sempre soube que a casa de sua avó era estranha. Era uma construção antiga, com corredores longos e rangidos que ecoavam pela noite. Mas o que ele mais temia era o porão — um lugar escuro, com uma porta de madeira pesada que permanecia trancada desde que ele era criança.
Certa madrugada, Eduardo acordou com um som vindo de lá: batidas suaves, como unhas raspando na madeira. Tentou ignorar, mas, entre as batidas, ouviu algo pior... uma voz fraca chamando:
— “Dudu... abre a porta...”
Era a voz da avó. O detalhe? Ela havia morrido fazia três meses.
No dia seguinte, ele perguntou ao seu pai sobre a chave do porão, mas o homem apenas mudou de assunto, nervoso. Eduardo decidiu não insistir. Porém, na noite seguinte, a voz voltou, agora mais forte:
— “Dudu... eu estou presa aqui... por favor...”
Tomado por uma mistura de medo e saudade, Eduardo não resistiu. Pegou uma lanterna e tentou forçar a fechadura. Depois de alguns minutos, a tranca cedeu com um estalo seco.
Um vento gelado soprou do porão, apagando a luz da casa. Eduardo iluminou o breu com a lanterna e começou a descer as escadas. O cheiro de terra molhada e ferrugem tomou suas narinas.
No fundo do porão, algo se movia. A lanterna tremia em sua mão.
— “Obrigado por me libertar...” — disse a voz da avó, mas agora mais distorcida, grave e gutural.
Eduardo ergueu a luz.
A criatura parada no canto tinha o corpo retorcido, a pele pálida e os olhos completamente negros. Ela sorriu, revelando dentes afiados demais para serem humanos.
Antes que Eduardo pudesse correr, ouviu a voz sussurrar diretamente em seu ouvido, embora a criatura estivesse a metros de distância:
— “Agora é a sua vez de ficar no escuro...”
A lanterna caiu, rolando pelo chão. Eduardo nunca mais foi visto.
E dizem que, até hoje, à noite, se você se aproximar da casa abandonada de sua avó, pode ouvir alguém batendo no porão e implorando:
— “Me deixa sair...”

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