O HOSPITAL DA COLINA

Hospital abandonado

 

 Havia, no alto de uma colina esquecida, um hospital abandonado que todos na cidade evitavam mencionar. Construído no início do século passado, fora fechado após uma série de mortes misteriosas de pacientes e funcionários. Diziam que os corredores ainda guardavam os gritos daqueles que jamais saíram vivos dali.

Rafael era fotógrafo amador e adorava registrar lugares abandonados. Certa noite, movido pela curiosidade e pelo desafio, decidiu entrar no hospital. Levou apenas sua câmera, uma lanterna e um gravador, prometendo a si mesmo que ficaria apenas algumas horas.

Logo na entrada, sentiu o ar denso, como se o ambiente estivesse vivo e respirasse junto com ele. As paredes mofadas pareciam pulsar, e o cheiro de ferrugem lembrava sangue seco. Cada passo ecoava como se alguém caminhasse logo atrás.

No corredor principal, havia cadeiras de rodas enferrujadas e macas cobertas de poeira. Quando ligou o gravador para registrar o som do lugar, uma voz sussurrou baixinho no aparelho:
“Não devia ter voltado...”

Assustado, Rafael desligou, pensando ser interferência. Mas, ao levantar a câmera para tirar uma foto, notou pelo visor a silhueta de uma enfermeira parada no fundo do corredor. Ele piscou e, quando abaixou a câmera, não havia ninguém.

Seguiu para o segundo andar. Cada porta que abria revelava mais horrores: quartos com marcas de garras nas paredes, berços abandonados, prontuários espalhados pelo chão com nomes riscados violentamente. Em um dos papéis, encontrou a frase escrita em sangue já seco:
“OS PACIENTES NUNCA FORAM CURADOS. FORAM ALIMENTADOS.”

O coração disparou. Rafael ouviu o som de passos correndo atrás de si. Girou a lanterna e viu uma figura de bata branca, sem rosto, que desapareceu ao ser iluminada.

Decidiu fugir. Mas, ao voltar ao andar térreo, percebeu que a porta de saída agora estava trancada por correntes enferrujadas que não estavam lá antes. O som de uma sirene médica começou a ecoar, como se o hospital tivesse voltado à vida. Luzes piscavam, e ele jurava ouvir vozes de médicos dando ordens em sussurros distorcidos.

Correu para o porão, na esperança de achar uma saída. Lá embaixo, encontrou um antigo necrotério. As gavetas de corpos estavam abertas, e algumas pareciam ter sido usadas recentemente, como se algo tivesse deitado nelas. O frio era insuportável.

Ao virar-se, encontrou-se diante da enfermeira do corredor, agora nítida. Seu rosto estava costurado, a boca presa por fios de arame, mas os olhos o encaravam com ódio. Ela estendeu a mão ensanguentada para ele.

Rafael tropeçou e caiu, derrubando a câmera. A lente quebrou, mas o flash disparou sozinho, iluminando o necrotério. No clarão, dezenas de pacientes apareceram ao redor dele: alguns sem olhos, outros com bocas costuradas, todos avançando em sua direção.

Ele tentou gritar, mas uma mão fria cobriu sua boca. O gravador caiu no chão e ligou sozinho. A última coisa registrada foi sua respiração ofegante, seguida de um coro de vozes sussurrando:
“Agora você é um de nós.”

Dias depois, a polícia encontrou apenas a câmera quebrada no necrotério. Nas fotos salvas, Rafael aparecia em todas, mesmo nas que tirou sozinho, sempre mais distante, como se fosse observado por alguém atrás da lente.

E, desde então, quem passa perto do hospital da colina garante ouvir, no meio da noite, o clique de uma câmera fotográfica vindo de dentro.

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