Entre as histórias de terror associadas ao sertão nordestino, existe uma narrativa pouco conhecida que descreve uma criatura noturna vestida de couro preto, com cheiro de sangue e hábitos semelhantes aos dos vampiros. Conhecido como Encourado, esse personagem aparece em publicações sobre lendas brasileiras como um ser perigoso que percorre povoados em busca de vítimas, espalhando medo por onde passa. Diferentemente dos vampiros mais conhecidos da literatura europeia, sua aparência está ligada à figura do vaqueiro nordestino, tradicionalmente protegido por roupas de couro usadas para enfrentar a vegetação espinhosa da Caatinga. Essa combinação entre a imagem do vaqueiro sertanejo, as crenças religiosas e o imaginário dos vampiros tornou o Encourado uma figura peculiar nas histórias de terror encontradas na internet.
Entretanto, a origem dessa narrativa exige um cuidado importante. Embora diversos sites apresentem o Encourado como uma criatura do folclore nordestino, as referências encontradas para a versão vampírica apontam principalmente para uma revista publicada em 1992, intitulada Vampiros: Lendas e Fantasias, volume 2. Não foi possível confirmar, nas fontes consultadas, uma tradição antiga independente que documente essa criatura exatamente com as características divulgadas atualmente. Isso não impede que a história seja apresentada como uma narrativa de terror, mas é importante distinguir a lenda publicada das crenças sertanejas documentadas.
A aparência do Encourado: o homem vestido de couro preto
Nas descrições publicadas sobre a lenda do Encourado, ele é apresentado como um homem que se veste inteiramente com roupas de couro preto, lembrando um vaqueiro sertanejo ou uma figura semelhante a um cangaceiro. Sua vestimenta é uma das características mais marcantes da criatura, pois o couro, normalmente associado à proteção e ao trabalho rural, passa a representar uma presença ameaçadora.
Outro detalhe recorrente é o cheiro de sangue, descrito em algumas versões como um odor característico que acompanha o personagem. Sua presença inspiraria medo e respeito, e sua aparência seria suficiente para despertar desconfiança em quem o encontrasse durante a noite.
O Encourado também é descrito como um ser de hábitos noturnos, que prefere agir quando os povoados estão silenciosos e os moradores se recolhem às suas casas. Nas narrativas que o apresentam como vampiro, ele se alimentaria de sangue humano e animal. Algumas versões acrescentam que ele teria preferência por pessoas que não frequentam a igreja, característica que aproxima essa narrativa de antigas representações religiosas do Diabo.
É importante não confundir automaticamente essa descrição com a aparência tradicional dos vaqueiros nordestinos. As roupas de couro fazem parte da história material e cultural do sertão, enquanto as características sobrenaturais atribuídas ao Encourado pertencem à narrativa lendária.
Como o Encourado escolhe suas vítimas?
Segundo a versão publicada na revista Vampiros: Lendas e Fantasias, o Encourado não escolheria suas vítimas ao acaso. A narrativa afirma que ele já saberia quais moradores não frequentavam a igreja e, ao chegar a um povoado, teria uma ideia de quem procurar primeiro.
Esse detalhe dá à história uma dimensão de ameaça constante, porque a criatura não dependeria de encontrar uma vítima por acidente. Ela seria capaz de chegar a uma localidade já sabendo quais pessoas despertariam seu interesse.
A mesma versão apresenta o Encourado como um ser que precisa ser convidado para entrar em uma casa, à semelhança de determinadas representações literárias de vampiros. No entanto, ele conseguiria encontrar maneiras de convencer os moradores a permitir sua entrada. Assim, mesmo uma residência fechada poderia deixar de ser um refúgio caso alguém, sem conhecer a verdadeira identidade do visitante, abrisse a porta e o recebesse.
A narrativa não oferece uma história individual completa de uma vítima identificada, com nome, local e data verificáveis. O que existe é uma descrição geral do comportamento atribuído à criatura, reproduzida por diferentes páginas dedicadas ao folclore e ao terror.
Os sinais da chegada do Encourado
Um dos aspectos mais conhecidos da lenda é a ideia de que a chegada do Encourado seria anunciada por mudanças no comportamento dos animais. De acordo com o relato publicado em 1992 e reproduzido posteriormente por outros sites, as galinhas deixariam de botar ovos normalmente e apresentariam dificuldades para se alimentar.
Os cachorros também demonstrariam um comportamento incomum: permaneceriam dentro de casa e gemeriam durante o dia. Até mesmo aves carniceiras, como urubus e carcarás, desapareceriam da região, afastando-se para lugares distantes.
Na narrativa, esses acontecimentos serviriam como alertas para os moradores, que perceberiam que algo perigoso estaria se aproximando. A população, então, procuraria se proteger e tentaria encontrar uma maneira de fazer a criatura abandonar o local.
Esses sinais fazem parte da descrição lendária publicada. Não foram encontrados registros independentes que comprovem a ocorrência desses fenômenos como consequência da presença de um ser sobrenatural chamado Encourado.
A oferenda usada para afastar o vampiro
A mesma narrativa apresenta uma maneira específica de tentar afastar o Encourado: oferecer um animal. Segundo o texto reproduzido nas fontes consultadas, os moradores acreditariam que um sacrifício poderia satisfazer a criatura e convencê-la a deixar o povoado.
A versão mais conhecida afirma que uma galinha preta ou um galo vermelho seriam suficientes para afastá-lo sem provocá-lo. A oferenda deveria ser colocada na entrada principal da cidade, pois, conforme a história, o Encourado só entraria pela porta da frente.
A publicação também menciona que, em tempos passados, teriam existido sacrifícios de pessoas consideradas indesejáveis, incluindo criminosos e crianças. Contudo, essa alegação aparece dentro da narrativa da revista, e não foi possível encontrar documentação independente que confirme a prática como um costume histórico associado ao Encourado. Por esse motivo, não deve ser apresentada como um acontecimento comprovado.
O detalhe da entrada principal é particularmente curioso: na história, a criatura não seria afastada por qualquer proteção religiosa convencional, mas por uma oferenda colocada no lugar específico por onde supostamente entraria. Esse elemento contribui para a identidade própria da narrativa vampírica.
A história completa do Encourado, segundo a narrativa publicada
Imagine um povoado do sertão nordestino quando a noite começa a cair. As casas se fecham, as ruas ficam silenciosas e os moradores se preparam para descansar depois de mais um dia de trabalho. Nesse cenário, a tranquilidade seria interrompida pela chegada de um homem desconhecido, vestido inteiramente de couro preto e acompanhado por um cheiro característico de sangue. Ele não teria a aparência de um vampiro tradicional, com capa ou presas expostas, mas lembraria um vaqueiro que acabara de atravessar as estradas empoeiradas do sertão.
Esse homem seria o Encourado. Conforme a narrativa divulgada, ele teria hábitos noturnos e se alimentaria de sangue humano e animal. Sua presença inspiraria medo e respeito, embora nem todos soubessem imediatamente quem ele realmente era. Ao contrário de uma criatura que atacaria qualquer pessoa encontrada pelo caminho, o Encourado seria seletivo e, segundo o relato, já saberia quais moradores não frequentavam a igreja. Ao chegar a uma localidade, teria suas primeiras vítimas em mente.
Sua aproximação seria percebida não apenas pelas pessoas, mas também pelos animais. As galinhas começariam a apresentar um comportamento estranho, deixariam de se alimentar normalmente e parariam de botar ovos como antes. Os cachorros permaneceriam recolhidos, gemendo durante o dia, enquanto os urubus e carcarás desapareceriam da região. Para quem conhecesse a história, esses sinais seriam motivos suficientes para suspeitar que o Encourado estivesse por perto.
Diante da ameaça, os moradores tentariam descobrir como proteger o povoado. O relato afirma que, em determinadas versões, as pessoas recorreriam a sacrifícios de animais, acreditando que a oferenda poderia satisfazer a criatura e fazê-la partir. A solução mais específica seria colocar uma galinha preta ou um galo vermelho na entrada principal da cidade. A oferenda teria de ficar justamente nesse ponto porque, de acordo com a narrativa, o Encourado só entraria pela porta da frente.
Mas a criatura teria outra característica que tornaria sua presença especialmente perigosa. Assim como os vampiros de determinadas tradições literárias, ela precisaria ser convidada para entrar em uma residência. Isso não significaria, porém, que os moradores estariam seguros simplesmente mantendo as portas fechadas. A história afirma que o Encourado seria astuto e encontraria uma maneira de conquistar a confiança de alguém, levando o próprio morador a permitir sua entrada.
Dessa forma, a ameaça não estaria apenas nas estradas ou nos limites do povoado. Ela poderia chegar à porta de uma casa sob a aparência de um visitante comum. Se fosse recebido, o homem vestido de couro deixaria de ser apenas um desconhecido e passaria a representar o perigo que os moradores temiam. A narrativa não descreve um episódio individual com começo, meio e fim envolvendo uma vítima identificada; ela reúne características gerais da criatura, seus hábitos, os sinais de sua aproximação e as supostas formas de afastá-la.
O relato termina sem apresentar um confronto definitivo, uma morte documentada ou a destruição do Encourado. A maneira de lidar com ele, dentro da história, seria tentar reconhecer sua chegada e oferecer o animal indicado na entrada principal. É essa combinação de medo noturno, comportamento estranho dos animais, sangue, roupas de couro e uma regra específica para entrar nas casas que forma a narrativa mais conhecida do Encourado vampiro.
É importante esclarecer que essa história foi reconstruída a partir dos elementos publicados sobre a criatura, sem acrescentar nomes de vítimas, acontecimentos históricos, diálogos ou episódios que não aparecem nas fontes consultadas. Portanto, trata-se da narrativa lendária documentada nas publicações encontradas, e não de um caso real comprovado.
O Encourado é o Diabo do sertão?
Existe outra história importante relacionada ao nome Encourado, e ela ajuda a entender por que esse personagem aparece associado ao Nordeste brasileiro. Na peça O Auto da Compadecida, do escritor paraibano Ariano Suassuna, o Encourado é o nome dado ao Diabo que aparece durante o julgamento dos personagens.
Em uma dissertação acadêmica sobre a representação do Diabo na cultura brasileira, encontra-se uma explicação atribuída ao próprio Suassuna: o nome “Encourado” foi uma criação do escritor, inspirada na crença sertaneja de que o Diabo poderia se vestir como um vaqueiro e percorrer estradas e encruzilhadas.
Essa figura é diferente do vampiro descrito na revista de 1992. Na peça teatral, o personagem está ligado à representação religiosa do Diabo e ao imaginário popular sertanejo. Já na versão vampírica, o Encourado é apresentado como uma criatura que se alimenta de sangue, manifesta sinais associados à sua presença e pode ser afastada por meio de uma oferenda.
As duas representações compartilham a imagem das roupas de couro, mas isso não significa que sejam exatamente o mesmo personagem em todas as suas características. É possível identificar uma relação entre o imaginário do vaqueiro sobrenatural e as descrições posteriores do vampiro, mas as fontes consultadas não permitem estabelecer uma origem antiga e contínua para a versão vampírica.
Qual é a verdadeira origem da lenda do Encourado?
A origem da versão do Encourado como vampiro é um dos pontos mais curiosos dessa pesquisa. O Portal dos Mitos e o artigo publicado pelo Folclore BR apontam para a revista Vampiros: Lendas e Fantasias, volume 2, publicada pela Editora PEN em 1992. O texto sobre o vampiro é atribuído a uma autora identificada como Nina Balle.
Segundo a análise publicada pelo Folclore BR em agosto de 2026, a descrição da revista foi reproduzida, quase integralmente ou com pequenas adaptações, por diversos blogs, páginas e vídeos. A publicação original, entretanto, não informa de onde a autora teria obtido a história, e a análise não identificou fontes anteriores com a mesma combinação de características.
Essa ausência de referências antigas não prova, por si só, que nenhuma história semelhante tenha sido contada oralmente. Significa apenas que não há documentação suficiente nas fontes consultadas para afirmar que o Encourado vampiro seja uma lenda tradicional antiga, transmitida durante séculos no sertão nordestino.
Há, por outro lado, registros do uso da palavra “encourado” para designar alguém vestido com roupas de couro, especialmente o vaqueiro. Esse significado aparece em dicionários e em textos sobre a cultura sertaneja. A palavra, portanto, possui uma relação histórica real com a vestimenta dos vaqueiros, independentemente da existência do vampiro lendário.
O resultado é uma distinção fundamental: a figura do Diabo vestido de vaqueiro está ligada a crenças populares mencionadas por Suassuna, enquanto o Encourado vampiro, com sua descrição específica, é rastreável nas fontes consultadas à publicação de 1992 e às reproduções posteriores.
Existem relatos reais de pessoas que encontraram o Encourado?
Durante a pesquisa, foram encontradas páginas, vídeos e publicações que apresentam a história do Encourado como uma narrativa assustadora do sertão. Também existem conteúdos que prometem contar relatos de encontros com a criatura. No entanto, não foi possível confirmar um caso real documentado que apresentasse testemunhas identificadas, data, local verificável e evidências independentes da existência do Encourado.
Isso não significa que ninguém tenha contado histórias semelhantes em conversas familiares ou relatos orais. Significa que, com as fontes disponíveis, não é possível tratar esses relatos como acontecimentos comprovados.
Também não foi localizada uma série de registros históricos independentes que demonstre que os moradores de determinada cidade sacrificavam animais para afastar especificamente o Encourado vampiro. Esse elemento aparece na descrição publicada em 1992 e foi reproduzido por outros sites.
Por isso, a maneira mais responsável de apresentar o tema é separar os fatos verificáveis da narrativa sobrenatural. A publicação de 1992 e as páginas que a reproduzem são fontes para estudar a história da lenda, mas não constituem provas de que a criatura exista ou de que os acontecimentos descritos tenham ocorrido de verdade.
O Encourado faz parte do folclore brasileiro?
O Encourado aparece em páginas dedicadas ao folclore brasileiro e é frequentemente classificado como uma criatura do Nordeste. Contudo, a classificação precisa de uma ressalva: a existência de uma página sobre uma criatura em um catálogo de mitologia não demonstra, sozinha, que ela tenha uma tradição oral antiga ou amplamente difundida.
No caso do Encourado, há pelo menos duas referências culturais relevantes. A primeira é a figura do Diabo vestido de vaqueiro, relacionada à crença sertaneja mencionada por Ariano Suassuna. A segunda é a versão do vampiro de couro preto, com cheiro de sangue, preferência por determinadas vítimas e uma suposta oferenda para afastá-lo, registrada na revista de 1992.
As duas versões passaram a circular em materiais sobre lendas e criaturas sobrenaturais, mas suas origens não devem ser confundidas. A pesquisa encontrada permite falar com segurança sobre a presença do personagem na literatura e nas publicações de terror; não permite afirmar que todas as características do vampiro sejam uma tradição ancestral comprovada do Nordeste.
Ainda assim, a história chama a atenção por combinar elementos da vida sertaneja com o imaginário dos vampiros. A roupa de couro, a paisagem rural, o silêncio noturno e a associação entre o sobrenatural e a religiosidade regional formam uma narrativa que se diferencia das histórias de vampiros mais conhecidas.
Conclusão: o mistério por trás do Encourado
A lenda do Encourado apresenta uma figura inquietante: um homem vestido de couro preto, que aparece durante a noite, tem cheiro de sangue e é descrito como um vampiro que escolhe suas vítimas e pode entrar nas casas depois de ser convidado. A história também menciona sinais estranhos no comportamento dos animais e uma oferenda colocada na entrada principal de um povoado como forma de afastá-lo.
Entretanto, a pesquisa revela que a origem dessa versão é menos conhecida do que muitos textos da internet fazem parecer. A descrição vampírica está associada a uma revista de 1992, e as fontes consultadas não permitiram confirmar uma tradição antiga independente nem relatos reais comprovados dos encontros com a criatura.
O nome Encourado também aparece na obra O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, mas ali designa o Diabo, em uma representação inspirada no imaginário sertanejo do homem vestido de vaqueiro. Essa ligação cultural ajuda a compreender a força da imagem, mas não comprova a existência do vampiro descrito nas publicações posteriores.
Assim, o Encourado permanece um personagem interessante para quem pesquisa lendas brasileiras e histórias de terror: não apenas pela narrativa assustadora, mas também pelo mistério de como uma descrição publicada passou a circular pela internet como se fosse uma antiga lenda regional. Conhecer essa diferença permite preservar o interesse pela história sem transformar informações não comprovadas em fatos.
Sites que falam da lenda:
https://portal-dos-mitos.blogspot.com/2021/08/encourado.html
https://folclorebr.substack.com/p/encourado
https://www.seresdofolclorebrasileiro.com.br/obras/eixo-ii-seres-transversais/encourado
https://mitologia-lendas-urbanas.fandom.com/pt-br/wiki/Encourado
https://www.zona33.com.br/2017/12/10-lendas-brasileiras-assustadoras.html
https://brasilassombrado.blogspot.com/2025/11/a-lenda-do-encourado-um-vampiro-do.html
https://www.youtube.com/watch?v=UdOcBrBr1gE
https://www.youtube.com/watch?v=cHDIFXCSIpI

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