A Rádio dos Mortos

A Rádio dos Mortos


 Na pequena cidade de Pedra Branca, existia uma estação de rádio antiga, abandonada havia mais de vinte anos. A torre ainda ficava de pé, enferrujada, tilintando quando o vento batia forte. À noite, todos evitavam passar por ali. Não porque acreditavam em lendas, mas porque, por mais que ninguém admitisse, todos já tinham ouvido algo vindo daquela torre: vozes… mas não de vivos.

Davi, estudante de jornalismo e apaixonado por tudo que envolvia comunicação antiga, decidiu investigar. Ele sempre sonhou em trabalhar numa rádio, e a história daquela estação perdida o obcecava. Diziam que, antes de fechar, o programa principal era comandado por um locutor chamado Augusto Menezes, que desapareceu durante uma transmissão ao vivo, sem qualquer explicação. O último áudio que restou era só ruído e uma frase sussurrada:

“Não desliguem… ele está aqui…”

A polícia nunca encontrou nada. A rádio foi fechada no dia seguinte.

Davi, viciado em mistérios, resolveu entrar no prédio em uma madrugada silenciosa. Levou uma lanterna, um gravador e coragem o suficiente para ignorar o arrepio constante na nuca.

As portas estavam apenas encostadas, como se alguém entrasse e saísse dali com frequência. O corredor cheirava a mofo, papel podre e algo metálico… como sangue seco. Ele iluminava lentamente cada canto. A tinta descascada revelava riscos estranhos nas paredes — não palavras, não símbolos — apenas linhas caóticas, como se alguém tivesse arranhado a tinta com unhas.

O estúdio principal ficava no fim do corredor. A porta tinha marcas de dedos. Grandes demais para serem normais.

Davi respirou fundo e entrou.

O estúdio estava intacto, como se tivesse sido abandonado apenas minutos antes. Microfone, mesa de som, discos, cartazes… tudo coberto por poeira, mas no lugar. A cadeira do locutor estava levemente virada, como se alguém tivesse levantado apressado.

Davi ligou o gravador e aproximou-se do microfone. Por impulso, falou:

— Teste de áudio… se alguém estiver ouvindo, responda.

Silêncio absoluto.

Ele riu de si mesmo e começou a explorar a mesa. Quando girou um dos botões, a lâmpada vermelha acendeu sozinha. O transmissor ligou. A antena respondeu com um estalo forte na estrutura lá fora.

O sinal estava ativo.

Mas a energia do rádio não funcionava há anos.

Davi congelou.

O gravador captou algo: um estalo. Depois outro. Depois um ruído crescente, como passos arrastando-se.

Não no corredor.

Dentro do estúdio.

A temperatura despencou. A boca de Davi soltou vapor como se estivesse em um freezer.

E então, a caixa de som velha no canto da sala começou a chiar, mesmo sem estar conectada.

Chiado… pausas… murmúrios.

E então uma voz surgiu claramente, profunda, gasta, como se tivesse sido moída pelo tempo:

— Eu pedi… que não desligassem…

Davi sentiu o coração acelerar tanto que achou que fosse desmaiar. A voz continuou:

— Está ouvindo… Davi?

Ele largou o gravador, que caiu no chão.
A voz falava com ele. Sabia seu nome.

Davi deu um passo para trás, tropeçando. A porta do estúdio se fechou sozinha, com um estrondo tão forte que levantou poeira do teto.

Ele correu até ela, puxando com todas as forças, mas parecia selada ao chão.

A caixa de som voltou a chiar.

— Eu fiquei preso aqui… por causa do que encontrei… atrás da paredes…

A voz se transformou, ficando molhada, gargarejante, como se estivesse sufocando.

— E agora… você está ouvindo também… pode ver também…

A lâmpada do teto piscou. Depois apagou.

Davi ficou no escuro total.

Um som profundo ecoou do canto da sala. Não era humano. Era como ossos quebrando dentro de carne podre, como algo se levantando depois de muito, muito tempo.

A respiração pesada veio da parede atrás dele.

Davi tentou não olhar. Tentou manter os olhos fechados, mas a curiosidade — ou medo — venceu. Ele virou lentamente.

Ali, na parede do estúdio, onde o pôster antigo balançava, havia uma rachadura longa e profunda. E dela, dedos finos demais, compridos demais, começaram a surgir, puxando o resto de algo que não deveria existir. Primeiro uma mão… depois metade de um rosto… a pele cinzenta, os olhos fundos, pretos… sem nada humano.

A voz da caixa de som sussurrou:

— Ele saiu quando eu abri… agora… você abriu de novo…

A criatura saiu completamente da parede, arrastando-se pelo chão como um animal quebrado. Ela se aproximou devagar, estalando os ossos a cada movimento.

Davi bateu na porta desesperado, gritando, chorando, até que finalmente ela se abriu. Ele correu pelo corredor sem olhar para trás, mas ouviu algo seguindo, arrastando-se, batendo contra as paredes.

Ele saiu da rádio e correu até o carro. Quando deu a partida, ouviu uma batida forte no porta-malas. Depois outra. Depois outra.

A voz voltou — não da caixa de som da rádio, mas do rádio do carro, que estava desligado:

— Não desligue… ele não gosta…

Davi acelerou até chegar em casa.

E então percebeu que cometeu um erro fatal.

O transmissor da rádio continuava ligado.
Ele trouxe o sinal com ele.
E tudo que estava preso lá dentro estava agora solto, procurando novas paredes para caminhar, novas vozes para imitar, novas pessoas para chamar pelo nome.

Todas as noites, às três da manhã, o rádio do quarto de Davi liga sozinho — mesmo desconectado — e repete a mesma frase:

“Não desligue. Ele está aqui.”

E sempre depois disso…

…algo bate na parede.

Três vezes.

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