A irmã de Eduardo, Laura, trabalhava como enfermeira em uma cidade do interior. Toda noite, para economizar tempo, ela pegava um atalho conhecido como Estrada dos Ossos — um trecho de 14 km onde não havia casas, luzes ou sinal de celular. O nome vinha de boatos antigos: gente que desaparecia ali e nunca mais era encontrada.
Eduardo sempre odiou esse caminho.
Na noite de 12 de agosto, Laura não chegou em casa. O carro dela foi encontrado parado no acostamento, a porta do motorista aberta, o farol aceso. Não havia sinal de luta.
Só havia uma marca de mão na lataria: uma mão grande demais, com dedos compridos e finos, quase ossudos.
A polícia descartou animal. Eduardo não conseguiu.
Sem respostas, ele decidiu investigar sozinho. Pegou o carro de Laura, o mesmo modelo, e saiu exatamente no mesmo horário em que ela costumava pegar a estrada: 23h40.
Antes de sair, a mãe dele disse a última coisa que queria ouvir:
— Filho… quando estiver lá… não pare se alguém pedir.
Eduardo achou aquilo estranho, mas não teve coragem de perguntar por quê.
A Primeira Noite
A Estrada dos Ossos era ainda pior do que ele imaginava: árvores secas de ambos os lados, sem folhas, como braços mortos apontando para cima. O asfalto era irregular, cheio de rachaduras.
No km 3, algo aconteceu.
A rádio do carro, desligada, ligou sozinha. Um chiado horrível invadiu o veículo, e depois uma voz arrastada, como se estivesse sendo pressionada pela garganta:
— Vo…lta…
Eduardo desligou a rádio. O chiado continuou.
Desconectou o fio. O chiado ainda continuou.
Ele apertou o acelerador. Não olhou para trás.
No km 5, o farol iluminou algo no acostamento: uma mulher parada, com roupas rasgadas, cabelos cobrindo o rosto.
Ela levantou a mão, pedindo carona.
Eduardo freou — reflexo.
Quando o farol iluminou melhor, ele percebeu algo horrível: a mulher estava sem os dois pés. Era como se tivessem sido arrancados. Mesmo assim, ela se equilibrava perfeitamente.
Ela inclinou a cabeça para o lado, como um animal curioso.
E sorriu.
O sorriso era largo demais, abrindo até perto da orelha.
Eduardo arrancou com tudo. Pelo retrovisor, viu a mulher começar a correr atrás do carro, em velocidade impossível, sem os pés tocando o chão.
Quando o alcançou, bateu na janela:
TOC… TOC… TOC…
Eduardo chorava enquanto acelerava.
Mas então, no km 8, ela simplesmente desapareceu.
No km 10, o motor do carro falhou. Parou completamente, como se tivesse sido desligado de dentro. Eduardo tentou ligar de novo. Nada.
No silêncio, ele ouviu passos.
Alguém caminhando devagar na estrada, arrastando algo pesado.
Quando a figura apareceu à frente, Eduardo sentiu a alma afundar.
Era um homem extremamente alto, magro ao ponto de parecer doente, mas com braços longos demais, que passavam do joelho. As mãos eram deformadas, com dedos ossudos e pontas escuras, como se fossem queimadas.
Ele olhou diretamente para Eduardo.
E sorriu.
O mesmo sorriso de antes. Lateral, rasgado.
Eduardo trancou o carro.
O homem tocou o capô com a mão enorme e falou, sem mover a boca:
— A que horas Laura passou por aqui?
Eduardo congelou.
Ele estava falando dentro da cabeça dele.
— Você… você viu minha irmã?
O homem inclinou a cabeça para trás, num movimento estranho.
— Ela me viu primeiro. Correu. Gritou. Chamou por você. Você ouviu?
Eduardo sentiu a garganta travar. Não conseguia responder.
O homem colocou as duas mãos no capô e começou a empurrar o carro para trás, sozinho, com força absurda. O rosto dele se aproximava do para-brisa — os olhos eram fundos, pretos, sem brilho.
Então, da escuridão à direita, surgiu a mulher sem pés.
E logo atrás dela, outras figuras, todas com o mesmo sorriso impossível.
Elas cercaram o carro.
Eduardo respirava rápido, quase desmaiando.
O homem colocou o rosto perto do vidro, tão perto que o hálito gelado formou neblina do lado de dentro.
— Ela ainda está viva. Mas só até você me responder.
Eduardo chorava, implorando:
— O que você quer?!
O homem finalmente sorriu de forma normal, pequena… humana…
E disse:
— Que você volte amanhã. E volte sozinho.
O carro ligou sozinho. As figuras desapareceram.
Eduardo dirigiu até sair da estrada, quase sem consciência.
A Segunda Noite
Ele voltou.
Tinha medo, mas tinha mais medo do que podia estar acontecendo com a irmã.
À meia-noite em ponto, no km 7, o homem apareceu novamente, no meio da estrada.
Eduardo parou.
O homem abriu a porta do passageiro e entrou, como se fosse normal.
— Vamos buscá-la.
Eduardo, tremendo:
— Onde ela está?
O homem apontou para fora da estrada.
Para a floresta.
Eles caminharam por entre árvores mortas, cada uma com marcas de garras profundas, como se coisas enormes tivessem escalado os troncos.
O homem finalmente parou diante de uma árvore grossa, marcada por dezenas de nomes riscados no tronco — alguns riscados violentamente, outros apenas gravados superficialmente.
Eduardo viu, na parte mais baixa:
LAURA
Fresco.
Arranhado recentemente.
— O que você fez com ela? — Eduardo gritou.
O homem respondeu com naturalidade:
— Nada ainda. Mas ela correu. E nos feriu. Isso tem preço.
— Nos…?
A floresta inteira começou a se mover. Figuras saíram de trás das árvores. Homens, mulheres, crianças — todos com sorrisos rasgados, bocas quebradas, membros tortos.
Todos olhando para ele.
O homem alto estalou o pescoço.
— Ela está ali. Mas só você pode entrar. Se tentar tirá-la… morre. Se deixar aqui… ela fica. Para sempre.
Eduardo respirou fundo.
Sabia que não tinha escolha.
A tal "ali" era uma cabana de madeira, podre, no meio da mata.
Ele entrou.
No chão, amarrada pelas mãos, Laura estava deitada, pálida, com os olhos arregalados.
— Edu… eu falei pra você não vir…
Ele se ajoelhou.
— Eu vim te levar pra casa. Vamos sair daqui.
Laura balançou a cabeça desesperada.
— Eles não deixam… eles querem… troca…
Eduardo percebeu:
Eles queriam ele no lugar dela.
Algo se moveu atrás dele.
O homem alto estava parado na porta.
— Decida.
Eduardo abraçou a irmã com tanta força que parecia capaz de quebrar os ossos dela.
— Eu não vou deixar você aqui. Nunca.
Laura chorava, soluçando.
O homem alto entrou na cabana. As outras figuras cercaram a porta.
Ele disse:
— Então será assim.
A cabana ficou completamente escura.
A voz do homem ecoou por todos os lados:
— Agora siga a estrada quando ela te chamar. E quando você ouvir passos atrás de você… não olhe.
Eduardo sentiu mãos geladas em seu ombro.
Depois outra.
Depois outra.
Centenas delas.
Laura gritava seu nome, mas o som foi engolido pela escuridão.
Três Dias Depois
Laura foi encontrada caminhando sozinha na estrada, desorientada, traumatizada. Não lembrava como saiu da cabana.
Ela só repetia uma frase:
— Ele ficou no lugar. Ele ficou no lugar…
Eduardo não foi encontrado.
Mas algumas pessoas dizem que, nas madrugadas, ao passar pela Estrada dos Ossos, veem um homem andando sozinho pelo acostamento.
Magro.
Com a pele pálida.
E um sorriso rasgado demais para ser de verdade.
Ele só faz uma coisa:
Estende a mão.
E pede carona.

0 Comentários