O Sussurro na Foto

O Sussurro na Foto


 Helena adorava tirar fotos de paisagens antigas. Em uma viagem a uma vila isolada, encontrou uma loja pequena com objetos velhos e uma caixa cheia de fotografias antigas, todas em preto e branco.

Uma delas chamou sua atenção: mostrava uma família diante de uma casa, mas todos estavam borrados… exceto uma menina no canto da foto. Ela estava perfeitamente nítida — olhos abertos demais, sorriso forçado demais.

E parecia olhar diretamente para Helena.

— “Quanto é essa aqui?”, perguntou.

O dono da loja ficou pálido.

— Essa não está à venda.

Mas ela já tinha pegado a foto. E levou mesmo assim.

A primeira noite

Em casa, colocou a foto na mesa. Enquanto mexia no celular, ouviu um sussurro — como se alguém estivesse muito perto de sua orelha:

— Me achou…

Helena gelou. Olhou ao redor. Nada.

Quando voltou os olhos para a fotografia, percebeu algo impossível: a menina na foto agora estava mais próxima do centro da imagem, como se tivesse dado um passo à frente.

Ela piscou várias vezes, achando que era impressão.

A segunda noite

Outro sussurro:

— Tô chegando…

Helena acendeu todas as luzes. A menina na foto estava ainda mais perto — agora ocupando quase metade da imagem, com o rosto maior, distorcido, como se estivesse tentando sair da fotografia.

Helena tentou rasgar a foto, mas o papel não rasgava. Amassou, jogou na lata de lixo… e a foto voltou para a mesa, esticada e lisa, como nova.

A terceira noite

Helena acordou com o som de algo arranhando o chão.

Raspa… raspa… raspa…

A foto estava no chão do quarto.
A menina agora aparecia na porta, a cabeça meio inclinada, sorrindo diretamente para a câmera.

O sussurro veio atrás dela, dessa vez claramente:

— Abre a porta pra mim…

Helena correu, trancou a porta, ligou todas as luzes… e ficou ali, tremendo.

De manhã

Quando o sol nasceu, ela criou coragem de olhar debaixo da porta. Não viu nada — só a fotografia.

Nela, a menina não estava mais na porta.

Estava ocupando toda a imagem, o rosto colado na “lente”, com um olho enorme e um sorriso rasgado demais para ser humano.

E a frase escrita em baixo, que antes não existia:

NÃO ADIANTA CORRER. JÁ ESTOU DO LADO DE FORA.

Helena levantou o rosto devagar.

Alguém bateu na porta do quarto.

Uma batida lenta.

E outra.

E uma voz infantil, suave demais, disse:

— Abre. Quero te ver sem a foto.

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