Na pequena cidade de Serra Negra, havia uma casa abandonada no fim da rua de terra, conhecida como a Casa da Meia Voz. O nome vinha de um boato estranho: quem dormia ali dizia ouvir alguém chamando seu nome — não alto, não baixo — apenas meio, como se a voz fosse cortada ao meio, vinda de dentro das paredes.
Marcelo, curioso e fã de lendas urbanas, resolveu gravar um vídeo para o seu canal explorando o lugar. Chegou de tarde, enquanto o sol ainda iluminava o interior da casa quebrada. O chão estava coberto por folhas e marcas de animais, mas o que mais chamava atenção eram os riscos na parede: linhas profundas, paralelas, como unhas arranhando do lado de dentro.
Ele começou a gravar.
— “Se existe algo aqui… qualquer coisa… aparece no áudio”, disse, tentando manter a voz firme.
O vento passou pelo corredor. A madeira estalou. Nada demais.
Até que, ao revisar a primeira gravação, Marcelo sentiu o coração parar. No fundo do áudio, quase imperceptível, havia uma voz arrastada:
“…ce… lo…”
Parecia o seu nome. Mas como? Ele estava sozinho.
Resolveu continuar gravando. A cada sala que entrava, a voz ficava mais clara. Agora vinha sem dúvidas de trás das paredes:
“…Mar…ce…lo… não… abra…”
Ele congelou. “Não abra”? Não abrir o quê?
Nesse momento, uma porta antiga, que estava emperrada, começou a tremer sozinha, como se alguém do outro lado tentasse girar a maçaneta. Marcelo, tremendo, deu um passo para trás. O tremor parou.
Silêncio total.
E então, uma última frase veio das paredes — agora nítida, quase do seu lado:
“Ela está atrás de você.”
Marcelo virou a câmera lentamente. Pelo visor, viu algo que não estava ali um segundo antes: uma figura alta, magra, com o rosto pressionado entre as tábuas de madeira rachadas, como se tivesse brotado da própria parede. O rosto não tinha olhos.
A boca, porém, sussurrava exatamente na mesma meia voz:
“…abre pra mim…”
O vídeo termina ali, porque a câmera caiu no chão. Foi encontrada no dia seguinte, gravando apenas estática. Marcelo não estava em lugar nenhum… mas nas paredes da casa surgiu um novo risco, fresco, como feito por unhas humanas — ainda pingando.
E naquela noite, moradores próximos juram que ouviram uma nova meia voz vindo da casa abandonada:
“…alguém… me… tira… daqui…”

0 Comentários