O Último Passageiro

 

O Último Passageiro



 Todo mundo na cidade evitava pegar o ônibus das 23h17. Embora a empresa negasse, os motoristas mais antigos juravam que aquela linha era amaldiçoada desde um acidente que aconteceu muitos anos antes, quando um ônibus caiu na ribanceira levando todos os passageiros.

Mas Clara, que trabalhava até tarde, não tinha escolha. Naquela sexta-feira, cansada e sem bateria no celular, ela entrou no ônibus quase vazio. Apenas três pessoas estavam ali: um senhor dormindo, uma mulher encarando o nada… e um homem sentado na última fileira, imóvel, olhando fixamente para frente.

O ônibus partiu.

Conforme avançavam pelas ruas escuras, Clara sentia uma presença esquisita. Não sabia explicar. Era como se alguém estivesse observando cada movimento dela.

Na parada seguinte, o motorista abriu a porta, mas ninguém entrou. Mesmo assim, ela ouviu passos subindo. Passos lentos. Pesados.

E então, algo gelado roçou seu braço.

Clara virou, assustada. Não havia ninguém ao lado dela.

O motorista olhou pelo espelho e franziu a testa.

— Moça… você trocou de lugar?

Ela não tinha se movido um centímetro.

O velho que dormia acordou de repente e começou a murmurar:
— Não deixa… não deixa ele sentar do seu lado…

A mulher que encarava o nada virou bruscamente para Clara. Seus olhos estavam cheios de lágrimas.

— Ele só aparece quando alguém aqui vai morrer.

O coração de Clara disparou.

— Quem? — ela sussurrou.

A mulher apenas apontou para trás.

Clara virou devagar, cada músculo tremendo. O homem da última fileira, que antes estava imóvel, agora estava dois bancos mais perto. E ainda olhando para ela.

Mas o pior não era isso.

Seu corpo parecia… molhado. Como se tivesse acabado de sair debaixo d’água. E de sua boca escorria uma linha fina de água escura, pingando no chão.

Ploc.
Ploc.
Ploc.

O motorista gritou:

— Ele subiu de novo! Segurem-se!

Clara não entendeu.

Então percebeu: a cada parada, ele chegava mais perto.

O ônibus parou numa esquina vazia. A porta abriu com um rangido profundo.

Os passageiros vivos ficaram paralisados.

O homem molhado levantou a cabeça pela primeira vez. Seus olhos eram brancos, completamente brancos, como se nunca tivessem visto nada.

E ele disse, com uma voz abafada por água:

— Falta só você.

Clara correu para a porta. Saiu tropeçando na calçada, sem olhar para trás.

No dia seguinte, a notícia correu:
Um ônibus caiu na ribanceira às 23h17. Todos sobreviveram… menos uma pessoa.

O último banco estava encharcado, como se alguém tivesse estado sentado ali.

E até hoje, quem pega aquela linha tarde da noite diz que, nas paradas mais escuras, ouve passos molhados subindo no ônibus — sempre procurando quem ainda precisa levar.

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